Ao fim de 2009 fomos convidados a participar da primeira edição do FUZARCA - (www.fuzarca.art.br), acontecido na Casa das Caldeiras, em São Paulo. Nossa proposta era levar a discussão que vínhamos tendo sobre a publicidade e suas estratégias de inserção no cotidiano. Nossa convicção estava no despublicizar pela consciência do deslocamento necessário a todo discurso publicitário: todas as suas falas, são falas estratégicas que precisam, para se efetivar, da criação de um contexto, de um universo que lhe é próprio. Vemos sempre as suas histórias, suas narrativas bem “boladas”; na real, a criação do universo onde o produto se apresenta como peça chave no acontecimento das narrativas, nas quais a vida é exaltada mediante o produto. Sem o produto destinado à venda, há outra espécie de consumo, mas quais consumos (imperativo) seriam estes ? Para onde eles poderiam ser levados e com qual função ? Haveria ainda a mesma intervenção destes discursos no(s) modo(s) de vida ?
Propomos para a organização da mostra uma instalação/performance. Além do trabalho colocado na parede da Galeria Subterrânea da Casa das Caldeiras a idéia era espalhar frases recontextualizadas de publicidade por todo ambiente, somada às recontextualizações afetivas: utilizar o discurso da publicidade na criação de um ambiente cuja estratégia é o encontro casual e a troca espontânea e livre, sem o compromisso de ver nas falas um produto a ser consumido mediante pagamento. Para as primeiras instalações necessitávamos de um suporte, no qual as frases estivessem presentes não nas paredes, mas suspensas, livres para serem pegas e tomadas para si.
Conhecemos nesse período o trabalho de Anne Marie Sampaio apresentado no festival universitário do SESC da Esquina, em Curitiba. Suas questões envolviam o diálogo em relação à apropriação dos espaços urbanos. A artista colocou ao chão pequenas pinturas para serem levadas pelo público. Envolvendo a pintura como objeto, o trabalho de Anne no primeiro momento retirava os pedestais de contemplação, e era entregue ao público com a exigência de que essa apropriação se destinasse à intervenção na cidade. As telas/objetos do Textura Urbana portavam no verso instruções indicando como fazer a intervenção e entregava os materiais necessários: pregos e arame. O segundo momento diz respeito ao suporte do trabalho que dava sentido à obra: o aparecimento dos objetos na cidade, cuja prática de intervenção era proposta ao público.
Apesar de ser a cidade o elemento prioritário do trabalho Textura Urbana, a apropriação primeira ocorreria sob o espaço interno da Mostra de Artes Universitárias SESC da Esquina. A relação de autoria-público assim ficava evidente nesse primeiro momento, com a autora propondo e o publico orientado.
Os desdobramentos do segundo momento eram capazes de valorizar a experiência artística na apropriação de um fragmento de espaço da cidade, espaço que poderia ser de outro, digamos particular: o portão de uma casa, a árvore de uma calçada. A etapa primeira colocava-se através de operações indicadas para fazer acontecer a obra, fazendo da autora uma autora de proposições, gerando um imperativo para um público cooperativo, pois recebe instruções e assim pode experimentar como é fazer uma intervenção. O potencial criativo nesse caso era encontrado no segundo momento: o acaso da vida interferente no espaço do possível que uma intervenção urbana pode provocar. Assim o público do Textura Urbana não cria, experimenta. Não provoca pela fala, realiza pelas instruções. É difícil encontrar público, ainda mais um público que pensa algo palpável, mas o fato dele ter o poder de realizar interferências no próprio trabalho já é uma forma de questionamento. A falta de resposta no fazer acontecer o projeto uma rebeldia em relação à arte. Digo isso em relação às poucas respostas enviadas à autora, mesmo sendo uma das condições para participar do trabalho. As respostas podem ser vistas no site do projeto: http://texturaurbanacuritiba.blogspot.com/.
O Coletivo Mofo Zero na ausência de um suporte que seria usado na Casa das Caldeiras com as recontextualizações encontrou a idéia de fazer uma provocação às noções de autoria do Textura Urbana: o suporte do trabalho de Anne é a cidade, no qual ela faz seu questionamento em relação às maneiras de intervenção num suposto espaço público. Resolvemos mudar esse questionamento então, evitando a cidade como suporte da intervenção e assumindo o espaço primeiro, do SESC da Esquina e sua Mostra Universitária, como espaço do discurso da obra em sua relação autor-obra-público, saindo de um festival universitário direto para dentro de outro.
Através do projeto Despublicidade do coletivo Mofo Zero o suporte do trabalho de Anne no FUZARCA passou a ser o discurso do Despublicidade, pelo qual foi “permitida” a intervenção no espaço da Casa das Caldeiras. Essa participação "clandestina", entretanto, legitimou os quadros/objetos do Textura Urbana no FUZARCA, surgindo a evidência de que não é o trabalho em si que se legitima num espaço, mas o discurso que ele se permite e de que maneira que esse discurso se relaciona com as instituições legitimadoras. Essa provocação pode contribuir para a questão inicial da obra de Anne, pois os espaços urbanos também legitimam discursos e as interferências nele propostas por outros dependem para sua permanência da contribuição ou não para os proprietários dos espaços ou dos eventos.
A apropriação das recontextualizações pelo evento foi interessante de alguma forma. Conquistamos a liberdade de fazer intervenção onde quiséssemos com o material que levamos. A cumplicidade formal estabelecida fez o trabalho do Mofo Zero se integrar literalmente ao FUZARCA, pensando e provocando a partir de um contexto específico. Colocamos nossas intervenções nos banheiros, nas escadas, no corredor, além de que nos foi possível fazer a instalação Olivetti Livre num dos locais de maior movimento do evento, o que passou a desafiar a própria proposta, com o advento de vários inesperados. Um registro dessa instalação pode ser vista em (http://mofozero.wordpress.com/olivetti-livre).
Curitiba, 01/2010
revisado em 07/2010.